Toinha cabeleireira - amor e dedicação ao que faz

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“Minha profissão quem me ensinou foi Deus, ele não me cobrou mensalidade. Me cobrou
honestidade e dignidade”. Foto: Wandenberg Belém)
O nome dela é Antônia Fernandes de Oliveira Silva, mas é carinhosamente chamada de ‘Toinha’. Nasceu no sítio Riacho Verde, em Assaré, terra também de Patativa, lá para as bandas do Cariri. Mas foi por aqui que fez fama e faz sua arte. Não recita poesias, como o poeta conterrâneo, mas usou a inteligência e suas mãos para conseguir seu sustento.

Ainda quando criança, por volta dos 14 anos de idade, ia para a roça, cuidar da lavoura, e de tanto ver o trabalho dos ‘barbeiros’ que andavam pela região, foi firme e forte na escolha da profissão. “Desde criança, eu sempre tive muita admiração pela profissão. Então é uma coisa que é hereditária, pela parte da minha mãe, meus tios eram Barbeiros, que hoje chamam cabeleireiro. Então eu acredito que é uma coisa hereditária”, relembrou, comemorando os mais de 40 anos de profissão. “Quem me ensinou foi Deus, ele não me cobrou mensalidade. Me cobrou honestidade e dignidade”.

Pegando a fama

Hoje, aos 63 anos de idade, a partir das 7h quem passa pela Avenida Agenor Araújo, no centro da cidade, pode entrar que ela já esta lá, no ponto, com sua simplicidade e sorriso aberto para atender os clientes, que na verdade são considerados amigos. “Escolhi a profissão. Gostei. Meu primeiro cliente foi Luiz Vasconcelos, quando ainda era criança, isso lá em Assaré. Comecei cortando dele, dos vizinhos, das crianças. Era em casa mesmo. Hoje eu tenho só que agradecer a Deus, todo dia, a todo momento. De lá pra cá, dei continuidade.  Eu trabalhava na roça mas nas horas vagas ia cortar cabelos. Fazendo clientela dos vizinhos, familiares, amigos, passei a corta de adultos e fui pegando a fama, graças a Deus”, ressaltou.

O primeiro trabalho em salão como barbeira, foi aqui em Iguatu, no dia 9 de dezembro de 1973. “Eu comecei trabalhar no Salão Central, aqui na Agenor Araújo, que era do saudoso Francisco Paulino Maia. Eu e mais outros colegas, inclusive hoje dos colegas daquele tempo de profissão só tem um, que é o José Gomes Assunção, conhecido como por ‘Baixinho’, que ainda tá na ativa, e hoje também trabalha no salão dele aqui próximo, na galeria. Meu endereço sempre foi aqui nessa avenida. Nunca mudei nem de uma calçada para a outra, mesmo quando trabalhei para outros”, disse.

Loucura

Mas não foi fácil chegar onde hoje esta. O primeiro negócio surgiu pouco tempo depois, em 1975, na esquina da Avenida Agenor Araújo, com Santos Dumont, quando abriu o ‘Salão Ideal’,  ficando lá até o ano de 1981. “Nesse tempo era recém-casada. Todo mundo tem direito de fazer suas loucuras, e eu fiz a minha. Fechei o salão, fui embora para o Paraná, morei em São Paulo, seguindo o esposo. Passei um ano por lá, considero isso como umas férias. Quando voltei para iguatu fui começar tudo de novo na vida. Voltei a trabalhar no salão da esquina, depois no Salão Central, no da esquina de novo. E assim fui”.
Então assim nasceu o Salão Silva, que vai completar 15 anos em setembro próximo. “Eu estou aqui neste salão, neste prédio que é próprio, desde 16 de setembro de 1999”, ressaltou.

Cabelo, barba e bigode

Toinha continua sendo a única mulher em Iguatu que trabalha nesse ramo, como barbeiro, atividade exercida quase que somente por homens. O Salão Silva é exclusivo para homens. “Aqui faço cabelo, barba e bigode. Em Iguatu enfrentei muito preconceito e discriminação. Mas eu falei pra Deus e pra mim: eu vim pra ficar eu vou ficar. Ainda hoje estou aqui, e não pretendo sair. Só quando Deus determinar.  Deus é quem determina”, disse sempre agradecendo a Deus e aos clientes.

Clientela

“Minha clientela é muito boa.  Sei que cada um que senta na minha cadeira, é porque gosta do meu trabalho. Gostam de mim. Eu todo dia agradeço a Deus e a eles que são muito bons. Eu atendo a todo mundo igual por igual. Não tenho atendimento diferenciado seja posição qual for. Considero todos iguais do mais pobre ao mais rico. Tanto faz a pessoa ter o dinheiro na hora, ou vir deixar depois pra mim tanto faz. Eu faço com a mesma dedicação.  Até porque são clientes antigos, assim como eles confiam e gostam do meu trabalho eu também confio neles. Hoje acredito que ninguém tenha mais nenhum preconceito com a profissão, porque se acostumaram, e já se adaptaram com a minha presença no mercado de trabalho. O mundo também foi mudando” disse sorrindo.


O salão é exclusivo para homens. A preferência é um gosto da cabeleireira. “Dá menos trabalho do que cortar cabelo de mulher”.

Diariamente sempre tem gente querendo manter ou mudar o visual, mas de acordo com Toinha, o movimento no salão aumenta mais final de ano, Natal, mas é imprevisível. Tem gente que corta o cabelo uma vez ao mês, outros a cada quinze dias. E com isso os instrumentos de trabalho: a tesoura sempre amolada, pentes e escovas limpos e a máquina elétrica estão no ponto a espera de mais uma pessoa que venha cortar o cabelo, além de bater um papo descontraído com a experiente barbeira, que se tornou mais uma iguatuense, pelo reconhecimento dos clientes, familiares e amigos que confiam em suas mãos. “Eu venho aqui desde criança. Moro em São Pedro, Jucás, mas sempre só corto os cabelos com ela. Espero que Deus lhe conceda muita saúde para continuar por mais quarenta anos fazendo o que ela sempre faz e tão bem feito”, disse satisfeito o jovem Carlos Renan. “Ela melhora a nossa autoestima, mexe com o nosso visual. Saímos daqui mais bonito”, destacou outro cliente, Eugênio Morais.

Família

Em 1982, nasceu sua única filha, Fernanda Fernandes de Oliveira Silva, formada em Nutrição, que atualmente trabalha em Fortaleza, a quem há 15 anos, também lhe deu um neto, o jovem, Uriel Anderson de Oliveira Silva. “Tenho saudades da minha filha, do meu neto, mas sei me comportar. O amor é grande por todos dois. Eu ainda ajudo a eles. Dou o que posso dar. Tudo que eu fiz na minha vida até o momento foi sempre pelo bem da minha família. Quando eu vim embora pra cá, vieram na minha responsabilidade, a minha mãe, meu pai, minha irmã, conhecida como Juju, esposa de Jeová Fernandes e o Vasconcelos, que é meu sobrinho, trouxe todo mundo na minha responsabilidade. Luiz inclusive saiu da minha responsabilidade quando casou-se. Pra mim é um filho que eu não tive. Quero muito bem, tenho muita admiração por ele”. Relembrou.

Palavras essas que são retribuídas pelo primeiro cliente, familiar e amigo. "Minha tia Toinha é uma mulher batalhadora, que sempre acreditou na força do trabalho. Eu a considero a minha segunda mãe, uma vez que fui morar com ela aos 9 anos de idade e só sai para me casar, em 1987. Posso afirmar que tenho bastante orgulho em saber que faço parte da sua trajetória profissional, pois o primeiro cabelo que ela cortou foi o meu, acho que eu tinha uns 5 anos de idade e ainda hoje continuo confiando em seu trabalho", ressaltou Vasconcelos.

Fidelidade

Os clientes realmente conhecem e gostam do trabalho. ‘Tem gente que vem de Fortaleza, Juazeiro,  de outras cidades da região.  Tem deles que começou com quatro anos de idade e ainda hoje corta.  “Cada ano, eles me lembram, hoje estamos completando ano. Outros vieram através dos pais, avós, graças a Deus a minha clientela é muito boa. Gosto de todos eles. Começo às sete da manhã, mas fico até o último cliente sair satisfeito e de visual renovado. Não tenho pressa para ir para casa. O cliente é primeiro lugar. Tem que dar preferência de atender  porque são eles que mantêm o meu salário”.

“Eu me sinto realizada, já realizei muito sonhos e tenho ainda muitos a realizar. Pretendo continuar até o dia que Deus determinar, porque ele é quem manda. Eu tenho prazer de ter minha família. Eu não tenho orgulho, eu tenho prazer. Ter feito isso com eles. Trabalho por mim, pela minha família. É o que dá sentido a vida. Enfim, minha amizade é muito grande. Nas minhas orações eu coloco todos eles. O lugar que eu me sinto melhor é no meu trabalho, que considero a minha casa”, concluiu.

Reportagem de Wandenberg Belém (publicada no jornal A Praça de 11/01/2014



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