POLITICA

Revista Istoé - Como conciliar o Brasil

O Brasil que saiu das urnas é um País claramente rachado em dois. O resultado eleitoral no segundo turno disputado entre Dilma Rousseff e Aécio Neves mostrou que eleitores das regiões Norte e Nordeste, mais dependentes de programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, optaram por manter no poder o partido que ampliou o assistencialismo, o PT, enquanto os das regiões Sul e Sudeste, mais produtoras e que mais pagam impostos, apostaram na oposição, representada pelo PSDB. Nessa geografia econômica do voto, Dilma – que no total bateu Aécio por uma diferença de apenas três milhões de votos – só se sagrou vitoriosa na disputa direta com o tucano entre os eleitores cujos salários somam até dois salários mínimos. Na faixa entre dois e cinco salários, houve empate. Nas demais, deu Aécio. Se categorias de brasileiros foram separadas de acordo com a renda familiar, o mesmo pode-se dizer do nível de escolaridade. A segregação do País por grau de informação – no caso, a falta de acesso a ela – também influenciou no resultado final favorável a Dilma. 

Não só no calor da campanha como também nos dias pós-eleição, o reflexo dessa divisão pôde ser observado nas ruas e nas redes sociais. Na semana passada, pipocaram nas redes abaixo-assinados em favor da separação do País entre Norte-Nordeste e Sul-Sudeste. Milhões de assinaturas foram recolhidas por meio do Facebook. Por mais absurdas que sejam essas propostas, a quantidade de adesões revela o racha existente hoje no País. O desafio que se impõe à sociedade e à classe política é como conciliar esse Brasil que emergiu das urnas.


O problema é que a unificação de um país com as dimensões e as diferenças do Brasil não é uma tarefa fácil e tampouco pode ser feita em curto prazo. Por outro lado, considerando exemplos de países desenvolvidos, especialistas garantem que a governabilidade não está ameaçada, como parece à primeira vista diante do mapa eleitoral mostrando o País dividido por linhas sociais e regionais. “Essa divisão é mesmo novidade para o Brasil. Em outras nações robustas e democráticas, os vencedores governam com uma pequena margem de vantagem”, diz Antonio Lavareda, sociólogo e cientista político.

Para o cientista político Alberto Carlos Almeida, a divisão regional existe não só no Brasil, como também em vários outros países, seguindo critérios semelhantes de interesses. Nos Estados Unidos, por exemplo, os mais pobres sempre votam nos democratas, enquanto os mais endinheirados preferem os republicanos, lembra o estudioso. O resultado disso é que o democrata Barack Obama foi eleito por margem apertada: com o apoio de 51,42% dos americanos. Na França, o cenário é quase idêntico: François Hollande recebeu 51,62% dos votos, percentuais parecidos com os 51,64% de Dilma Roussseff. “A disputa no Brasil está bem estruturada. E ainda existe o PMDB para garantir a governabilidade para qualquer um dos lados que vença. E é por isso que nunca vamos virar a Argentina”, disse Almeida. Para Sonia Terron, cientista política e coordenadora do Grupo de Pesquisa em Análise Espacial da Associação Latino-Americana, o racha evidenciado nas eleições no Brasil se tornou um padrão que vem ganhando contornos mais claros desde o pleito de 2006. “As preferências eleitorais expressam uma aprovação regional maior ou menor aos candidatos dos dois partidos. Isso é reflexo de uma série de fatores, como nosso contexto socioeconômico das regiões e o respectivo impacto das políticas públicas, os arranjos da política subnacional e as estratégias de campanha dos partidos”, avalia a pesquisadora.

Embora a divisão do Brasil seja observada desde 2006, quando os programas de distribuição de renda foram ampliados, foi o discurso do PT pós-mensalão que estimulou a abertura dessa trincheira. Na época, o partido insistia que as denúncias de corrupção eram resultado da revolta dos ricos com a ascensão social dos mais pobres. A tese se manteve insistente ao longo dos anos na retórica petista e ganhou força nestas eleições. Não por acaso, no segundo turno, o Brasil se dividiu entre petistas e anti-petistas, e feridas ficaram abertas mesmo depois do escrutínio das urnas. Na quinta-feira 30, provocado por denúncias feitas na internet pela militância tucana, o PSDB decidiu pedir oficialmente uma investigação da apuração dos votos. “Com a introdução do voto eletrônico, as formas de fiscalização, auditagem dos sistemas de captação dos votos e de totalização têm se mostrado ineficientes para tranquilizar os eleitores quanto à não intervenção de terceiros nos sistemas informatizados. Diante desse quadro de desconfiança por parte considerável da população brasileira, o PSDB decidiu apresentar ao TSE, no dia de hoje (30/10), um pedido de auditoria especial’’, disse o partido em nota.


Em uma de suas poucas manifestações depois da corrida eleitoral, a candidata do PSB à Presidência, Marina Silva, abordou a questão. “Apesar de todos os nossos esforços, o discurso de desconstrução e intolerância cultivado nos longos anos de polarização política dominou a campanha. O Brasil está dividido e a principal obrigação das lideranças, tanto dos vencedores quanto dos derrotados nas urnas, é reencontrar novos caminhos para a união e o entendimento em torno de uma agenda estratégica para os reais interesses do país”, resumiu. Para o professor da Unicamp Eduardo Fagnani, o cenário atual é resultado de fatores históricos alimentados ao longo dos anos. “O que vem dividindo o Brasil é, em primeiro lugar, a indigência cultural fruto do passado escravocrata que ainda persiste, além da crônica distribuição da renda, apesar dos avanços recentes. Para resolver essas divisões é preciso desenhar e implantar um novo projeto de transformação econômico e social, que enfrente todas as faces da crônica desigualdade social brasileira”, afirma.

Embora os exemplos internacionais tragam algum alento, a presidenta reeleita sabe que terá de enfrentar o clima hostil dos eleitores insatisfeitos, além de um Congresso com 28 partidos e centenas de interesses em jogo. As legendas constituídas no Parlamento já dão mostras de que um eventual apoio pode sair caro. É um sinal de que a divisão retratada nas urnas pode continuar refletida pelos próximos anos.  

(Fonte: Revista IstoÉ)
Izabelle Torres (izabelle@istoe.com.br)

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