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Erros na Saúde apontam para colapso

A falta de profissionalização na gestão, a fragilidade na estrutura da atenção básica, a excessiva judicialização e até a formação de médicos cada vez mais limitados na capacidade de avaliar os pacientes dentro de um contexto mais amplo são alguns dos pontos destacados por especialistas que provocam impacto financeiro enorme quanto ao custeio da Saúde, culminando na crise enfrentada pelo setor. Se não houver correção nos rumos atuais, a perspectiva apontada para o futuro é de colapso.

Ex-secretário de Saúde de Fortaleza, o médico Manoel Fonseca Neto afirma que um dos maiores desafios na gestão da saúde está no aperfeiçoamento da estrutura de atenção básica. O ex-gestor ressalta que ainda há uma dificuldade significativa no trabalho de prevenção, resultando na superlotação dos hospitais e, consequentemente, encarecendo a manutenção de todo o sistema. Ele contribuiu para a elaboração de um diagnóstico da Saúde na Capital para ser apresentado no próximo dia 23 de outubro em evento organizado dentro do projeto "Fortaleza 2040", iniciativa da Prefeitura de Fortaleza.

Manoel Fonseca Neto cita os casos de sífilis congênita registrados em Fortaleza como exemplo de como a falta da prevenção impacta no custeio da Saúde. A doença, diz o médico, já deveria estar erradicada, mas ele aponta a inexistência de uma política preventiva mais sólida. Dessa forma, o cenário acaba por gerar gastos com pacientes que sofrem com enfermidades que poderiam ser facilmente evitadas.

"Nós temos 400 casos de sífilis congênita em Fortaleza. Sífilis congênita não era mais para existir. É uma doença do tempo da bíblia. Nós termos 400 casos significa que um dos componentes básicos é a atenção básica da saúde, porque isso é tratado no posto de saúde. Não precisa de hospital para tratar isso daí", esclarece o ex-secretário.

Doenças

O médico acrescenta que o perfil das doenças que mais causam mortes em Fortaleza e no Ceará se transformou ao longo dos últimos anos, mas enxerga que a gestão pública ainda não compreendeu a alteração, direcionando de maneira inadequada os investimentos já escassos.

"O sistema precisa entender um pouco essa mudança de perfil. Os gestores têm de ver o que está acontecendo com o povo. Como a população está envelhecendo, as doenças do envelhecimento estão começando a predominar. Há 20 anos a primeira em causa de morte eram as doenças infecciosas parasitárias. Hoje é a quinta. A primeira no Ceará são as doenças cardiocirculatórias. Em Fortaleza, isso inverte. A principal são as violências", lista.

O ex-secretário também analisa que a formação do profissional voltada cada vez mais para a tecnologia tem peso primordial no encarecimento na gestão da Saúde. Manoel Fonseca Neto frisa que os médicos hoje pouca atenção dão à relação mantida com os pacientes. Ele acredita que o aperfeiçoamento nesse diálogo não somente reduziria a necessidade da aplicação de exames, por vezes, caríssimos, mas também agilizaria o diagnóstico de algumas doenças.

"Você tem especialista para tudo, mas cada vez mais está diminuindo os clínicos. Às vezes nem examina a pessoa e já pede um bocado de exames. Nem olha para a pessoa e vai olhar para o exame. A pessoa sente dor de cabeça, e pedem tomografia. Isso é um absurdo, porque não se examina a pessoa. Tomografia é caríssimo", pontua.

Encarecimento

A médica e professora da Universidade Federal do Ceará Vaudelice Mota acrescenta que a sociedade influencia no processo de encarecimento na gestão da Saúde. Para a docente, a população está muito 'medicalizada'. "Todo sofrimento eu transformo em um problema médico. Nunca estou satisfeito. Há um exagero. Existem coisas que a pessoa precisa enfrentar sem necessariamente buscar medicamento".

Vaudelice Mota destaca que a sociedade deve entender que a Saúde tem custo alto e, por isso, é fundamental que ela cobre a profissionalização do setor, pois defende que só o aperfeiçoamento na gestão reduzirá o alto montante de gastos desperdiçados.

"A gente precisa profissionalizar a gestão do sistema de saúde. As pessoas precisam saber o quanto custa para poder valorizar, precisam saber o quanto gasto no hospital, quanto custa uma internação, quanto custa um salário do médico. Nós temos vários gastos no decorrer do atendimento. Não é uma questão economicista, mas para a gente poder trabalhar com a racionalidade necessária", frisa.

A diretora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará, Valéria Goes Ferreira, afirma que o setor acadêmico já se atentou para a deficiência na formação de profissionais capacitados para a atenção básica, mas admite que ainda demandará muito tempo até que as transformações sejam sentidas.

"A questão da residência começou por volta de 1977, refletindo o que estava acontecendo nos Estados Unidos, na Europa. Via-se a necessidade de se especializar em algumas áreas. Esse modelo pedagógico foi levando as universidades. Desde 2001, com as diretrizes nacionais curriculares, já se viu que isso não ia suprir a necessidade da população como um todo. Só que mudar essa cultura ainda demandará muito tempo", explica.

Valéria Goes alega que o impacto da tecnologia nas últimas gerações tem obrigado as instituições acadêmicas a reforçar a formação humanista dos estudantes para evitar a fragilidade na relação entre profissionais e pacientes. "A geração de hoje se acostumou com a informação chegar mais fácil, mais rápido".

Licitação

A judicialização da Saúde é apontada como outro agravante no encarecimento da gestão. Manoel Fonseca afirma que judicializar o setor fere, por vezes, o processo de licitação que baratearia o montante destinado à compra de medicamentos. "O impacto financeiro é terrível. E está tirando dinheiro de algum canto. Se tira dinheiro para atender 10 pessoas, enquanto poderia atender a 200, vão ficar 200 sem ser atendidas", pontua.

Ex-funcionário da Secretaria de Saúde do Estado, Manoel Fonseca Neto revela que os secretários sempre temeram a aplicação de medidas judiciais. "Os secretários ficavam apavorados. Tinha secretário que fugia pela janela quando sabia que vinha oficial de Justiça. A judicialização precisa ser tratada com muito cuidado, porque tem de ter padrões de procedimentos, tem de ter protocolos clínicos. Não pode simplesmente entrar na justiça porque surgiu um medicamento que não está nem comprovado ainda a sua eficácia", avalia.

Já a médica Vaudelice Mota acrescenta que a judicialização termina por ser injusta ao beneficiar mais aqueles com condições de arcar com custas processuais. "Como a gente vive numa sociedade capitalista, alguns direitos acabam garantidos a quem tem mais em detrimentos de quem tem menos. A judicialização favorece a quem pode pagar uma advogado", completa.

(Diário do Nordeste)


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