CIDADE

Comerciante de Iguatu desafia o tempo


Aos 90 anos, Joaquim Severo é exemplo de perseverança no trabalho. Foto: H. Barbosa
Um dos comerciantes mais antigos de Iguatu, cidade da região Centro-Sul do Ceará, em plena atividade há 71 anos no segmento varejista, Joaquim José de Freitas, conhecido por Joaquim Severo, 90 anos, tem uma vida de luta intensa e de muito trabalho. É referência nesta cidade, há décadas, no ramo de camisaria. Mantém uma longa tradição. Tornou-se um personagem histórico e guarda a memória viva de mais de meio século de crescimento do setor lojista.

Antes de ser bem-sucedido nos negócios, Joaquim Severo foi marchante, alfaiate e vendedor. Aos 90 anos, afirma que se sente realizado e não se arrepende de nada do que fez. Nasceu na localidade de Barra, zona rural deste município em uma família de 16 irmãos. "Sou um homem realizado, feliz. Fiz tudo que gostaria de fazer: farreei, dancei, bebi, namorei, casei, tive filhos, criei todos, dois são médicos e dei oportunidade a todos para estudarem". Em 1937, aos 12 anos de idade, foi enviado pelo pai para a cidade de Canindé, para estudar em um colégio administrado por frades franciscanos. Lá, sua permanência foi bastante curta, pois aliando mau comportamento e pouco interesse pelos estudos, terminou expulso e teve que retornar a Iguatu, ainda no mesmo ano.

De volta à sua cidade natal, decidiu não mais ir à escola, mas foi advertido pelo seu pai José Bezerra de Freitas: "Se você não quer estudar, então vai ter que trabalhar", lembrou. E foi assim que, orientado pelo alfaiate conhecido como senhor Virgílio, comprou, com apoio do pai, o seu primeiro instrumento de trabalho, uma máquina de costura, e iniciou seus primeiros passos na arte de fazer peças de roupa masculina.

A arte de cortar e costurar vestimentas estava no caminho dele. Na loja, contava com a ajuda de uma funcionária, uma viúva, Zotene, com quem viria a se casar mais tarde. Ela já tinha quatro filhos adotados. Da união, nasceram mais nove rebentos. Hoje, mesmo viúvo e tendo apenas a companhia dos filhos, para ele, a família ainda é seu maior patrimônio. "Tive uma vida dedicada ao trabalho e à família".

Em 1944, abriu seu próprio negócio e denominou de Alfaiataria São Francisco. A nova empresa tinha bom fluxo de clientes no período do verão, épocas da safra de algodão em que as pessoas enchiam a loja para encomendar roupas. Quando chegava o período chuvoso, o movimento diminuía porque os homens estavam no campo, cuidando da lavoura. Joaquim Severo mudava de ramo e virava um marchante. Comprava, abatia e vendia carnes de boi, porco e carneiro. Trabalhando forte, confeccionava roupas sociais masculinas -paletós e camisas, tanto sob encomendas de homens de negócios e das principais autoridades da cidade. Fazia estoque para venda, em uma estratégia inovadora para a época. Foi nessa oportunidade que resolveu implantar um clube de roupas que fez bastante sucesso: consistia na venda através de um sistema de consórcio.

Naquela época, o comércio não conhecia o modelo de venda a prazo por longo período, o crediário. A cidade não contava com energia elétrica, mas ele adquiriu um gerador que era alimentado por um motor a gás e produzia energia para o funcionamento de sua empresa e ainda fornecia para alguns comerciantes amigos.

Uma das grandes emoções de sua vida foi quando, em 1947, fruto de sua união com a dona Zotene, nasceu seu primeiro filho. Segundo ele, isto lhe exigiu mais responsabilidade, dedicação e esforço. Joaquim Severo lembra ainda hoje um episódio que ocorreu com ele, que lhe serviu de lição para a vida inteira. Seu filho Joaci adoeceu e ele foi falar com o farmacêutico Apulcro Lima Verde, para lhe fornecer um medicamento e colocar na conta de seu pai. Ouviu a seguinte resposta: "Não vou colocar na conta de seu pai. Você que trabalhe e venha pagar, porque já tá na hora de assumir suas responsabilidades".

Seu Joaquim assimilou o episódio como um aprendizado e um estímulo e apressou-se a continuar trabalhando com mais garra. Continuando com sua alfaiataria, aproveitava o tempo disponível e os períodos de retração das vendas, para se dedicar também a outros negócios como venda de carne, verdura e mais tarde abriu o Café Kabana e posteriormente a Sorveteria e Lanchonete Tranza, no início da década de 1970.

Com o objetivo de expandir os negócios, resolveu então alterar as atividades do seu comércio, foi quando transformou a alfaiataria em Camisaria São Francisco, nome que permanece até hoje. "Da nossa geração só existem dois no comércio de Iguatu, em atividade, eu e Otavio Nascimento", lembra.

Ao longo de sua trajetória como homem de negócios, seu Joaquim tem dado considerável parcela de contribuição para o crescimento da cidade. Não bastasse o comércio que desenvolveu também beneficiou o setor imobiliário com abertura de loteamento nos bairros Paraná e Flores, no ano de 1970.

Aos 90 anos de idade estando ainda em plena atividade e com saúde, Joaquim Severo afirma que para isto não existe receita pronta. "Estamos falando aqui de uma história, e cada um pode construir a sua". Para o comerciante antigo, a vida nos mostra todo dia um bom motivo para sorrir. Mas ele também sabe que sempre nos intervalos entre uma alegria e outra existem os momentos de dor e tristeza.

Falecimento

Duas ocorrências tristes aconteceram na vida de seu Joaquim. A primeira foi em 1980 quando seu filho Stênio, acadêmico de engenharia de Pesca e estudante em Fortaleza, foi brutalmente assassinado. Naquele mesmo ano, ele ingressou nos Alcoólicos Anônimos, o que contribuiu para deixar definitivamente o vício da bebida. A segunda foi o falecimento da sua esposa, Dona Zotene, em 1994. Esses fatos abalaram sensivelmente as estruturas de Joaquim Severo que com fé e muita coragem continuou com as atividades empresariais.

Hoje, aos 90 anos, pai de nove filhos, quatro enteados, 37 netos, 38 bisnetos e um tataraneto, gosta de dormir tarde, levanta cedo, vai diariamente para a camisaria, visita o cemitério todo domingo e gosta de ler jornal e revista, sem o auxílio de óculos. Para os filhos, mais que um comerciante é o verdadeiro 'Pai Herói'. "Ele é motivo de orgulho para todos nós", afirmou uma das filhas, Margalene Medeiros.

(Diário do Nordeste)


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