OPINIAO

"Iguatu, cadê tua alma?" - Por Hildernando Bezerra, médico iguatuense


"Nessas horas, a gratidão sofre de amnésia, e são raras as vozes em defesa de quem é acusado. Herança nefasta do início do cristianismo." 

Assim escreveu o médico Hildernando Bezerra acerca do recente episódio envolvendo o nome do médico nefrologista, Emir Mendonça Lima Verde. Nesse contexto, disse muito bem ao expor do trabalho primoroso do Dr. Emir Lima Verde, que durante quase 10 anos tem contribuído de forma significativa para a melhora da saúde de Iguatu. Atualmente pela sua clínica passam quase 150 pacientes, que dia sim, outro não, necessitam passar por procedimentos de diálise para continuarem vivos.

Abaixo reproduzo texto de autoria do médico Hildernando Bezerra, veiculado na edição deste sábado (01/07), do jornal A Praça de Iguatu.

Doutor Emir Mendonça Lima Verde

Nos últimos dias Iguatu foi tomada, subitamente, por uma notícia contundente, nos meios radiofônicos e televisivos, dando conta de que o Instituto de Nefrologia, onde são realizados os procedimentos de hemodiálise de pacientes renais de toda a região, estaria produzindo substâncias irregulares de forma clandestina, e utilizando nos pacientes. Mais bombástica ainda foi a informação de que o filho do proprietário do instituto, Emir Mendonça Lima Verde Filho, teria sido preso e autuado.

De imediato, surgiram versões as mais desencontradas a respeito do fato, quase sempre no sentido de incriminar o Dr. Emir, dono do Instituto de Nefrologia. Nessas horas, a gratidão sofre de amnésia, e são raras as vozes em defesa de quem é acusado. Herança nefasta do início do cristianismo. Acusado, Cristo teve no máximo quem lavasse as mãos a seu favor.

Há meses Dr. Emir Mendonça Lima Verde acha-se em Fortaleza, acometido de doença grave que exige tratamento prolongado e permanente.

Sua vida de médico é um exemplo virtuoso. Foi o primeiro médico cearense a fazer Residência Médica com especialização em Nefrologia, na Alemanha. Lutou pela importação da primeira unidade de hemodiálise do Ceará, no Hospital Geral de Fortaleza, donde era servidor e preceptor dos internos e residentes. Na faculdade de Medicina da UFC, criou a Cadeira de Nefrologia, onde foi Professor durante décadas, até sua aposentadoria. Era um Mestre por excelência. Suas aulas eram extremamente concorridas, pelo seu conteúdo científico. Nas enfermarias, ao lado do paciente, suas aulas eram, além de grande aporte científico, lições de ética e de trato humanizado do paciente. Com seus alunos acadêmicos era um fidalgo, um primor de educação.

Quando da nossa primeira gestão à frente da edilidade iguatuense, tendo em vista o enorme sacrifício dos pacientes renais para se deslocarem a Fortaleza, três vezes por semana, 6 horas de viagem numa Kombi, procurei-o e propus que ele instalasse um serviço de hemodiálise em nossa cidade. Ele me explicou que só seria possível quando se aposentasse, o que não demoraria muito. Na nossa segunda gestão, voltei a abordá-lo, ocasião em que ele tomou a decisão não apenas de trabalhar, mas também de morar em Iguatu. A essa altura, os pacientes já estavam indo fazer hemodiálise em Juazeiro do Norte, duas horas de viagem de ida, mais duas de volta, três vezes por semana. Ainda era um martírio.

Dr. Emir Mendonça Lima Verde instalou-se em Iguatu e passou a tratar e amenizar o sofrimento de tanta gente, no dia a dia. Milhares, de toda a região Centro-Sul, que necessitaram dos seus préstimos. De formação verdadeiramente hipocrática, jamais tirou vantagens financeiras de suas ações. Sofrendo com a desordem nacional na saúde pública, tem se endividado junto ao empresariado iguatuense, para não parar os serviços ali prestados.

Desde os tempos do Hospital Geral de Fortaleza e da Faculdade de Medicina, é ele mesmo quem faz o trabalho de dosar os sais a serem utilizados nos pacientes, com a mesma abnegação e meticulosidade de cinquenta anos atrás. Sempre que um de nós médicos pede seus préstimos para um paciente pobre jamais se negou a atender gratuitamente, o que ocorre com grande frequência. Hoje, enquanto a maioria dos profissionais renomados têm um patrimônio material razoável, Dr. Emir anda num carrinho com anos de uso, sob o nosso clima tórrido e impiedoso. Não bastasse o clima, a inveja e a maldade surgem para praticar a injustiça de forma impiedosa. Denunciado, doente, distante, toma o choque de saber que o filho se acha preso como um meliante comum.

Tenho a real dimensão dos seus sentimentos, nesse instante. Quando aceitei a candidatura a Prefeito de Iguatu, em 1988, visitei vários iguatuenses ou personalidades que aqui residiram, e que já residiam em Fortaleza, apresentando projetos e coletando ideias. Um deles me disse: “Cuidado! Iguatu é uma cidade sem alma, que maltrata e machuca as pessoas que mais fazem por ela. Mas você só me dará razão após dez anos”. Não vou me ater ao assunto, mas após dez anos, cumprida aquela profecia, tomei a decisão de deixar a política, mesmo tendo cumprido todas as metas a que nos propusemos. Hoje, dez anos após de serviços prestados a Iguatu, Dr. Emir Mendonça Lima Verde prova do mesmo fel da injustiça.

Chegam mesmo, por ignorância, a levantar suposições sobre mortes de pacientes sob hemodiálise. Ora, é nos hospitais mais sofisticados e melhores que ocorre o maior índice de mortalidade, porque é para lá que vão os pacientes mais graves. E o paciente sob hemodiálise está sempre com a vida por um fio. Todas as grandes figuras da Humanidade, nos últimos cem anos, faleceram nos melhores hospitais do mundo. Nenhum paciente morre no ambulatório do PSF.

Neste momento, com certeza o Dr. Emir se acha mais abalado com esta tragédia do que com a doença que ele tem enfrentado com grandeza. Um homem com seu currículo, com seu histórico, sua formação humanística, seu caráter e seu padrão ético e moral não deveria jamais ser submetido a tamanha humilhação. Tamanha nódoa nunca mais se apaga da memória de um cidadão de bem. Por tudo isso, sinto-me na obrigação de defendê-lo, escrever e gritar bem alto:

IGUATU, CADÊ TUA ALMA?

É hora de vencer a profecia do mal, defender as pessoas de bem, reconhecer quem mais faz o bem à nossa gente. É hora de mostrar solidariedade. Com certeza, Dr. Emir provará sua inocência perante a Justiça. Mas não é suficiente. Só há um valor capaz de compensar o que Dr. Emir sofre neste momento: se sua própria grandeza humana perdoar o que Iguatu lhe fez. A nós, cabe o apoio irrestrito a ele e sua família, mostrar que nossa gratidão não sofre de amnésia.

Senão, só me resta colocar minha alma genuflexa diante da grandeza humana do Dr. Emir e lhe pedir perdão por tê-lo convencido a vir amenizar o sofrimento da nossa gente, salvar vidas da nossa gente.
A quem interessar possa: não me abate o que me digam de um ser humano. O que me importa é o que eu conheço dele. O Dr. Emir merece um lugar de destaque no panteão dos grandes nomes da história iguatuense.

Por Hildernando Bezerra, médico, ex-prefeito de Iguatu e ex-deputado estadual

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